sábado, 11 de janeiro de 2025

Ainda estou aqui e a cobrança do recorte racial.

Atenção, esse texto contém spoilers do filme.

O filme "Ainda estou aqui" começa retratando o dia a dia da família Paiva. Uma família numerosa composta de pai (Rubens Paiva), mãe (Eunice Paiva) e 5 filhos que foi afetada pela prisão e morte do pai pela ditadura militar. Logo no início já se percebe que se trata de uma família de posses, as pistas? Uma mãe de cinco filhos nadando tranquilamente no mar, uma das crianças anda o que parece ser um quarteirão para chegar da praia a casa, a presença de uma empregada doméstica e uma filha que passa uma temporada no exterior.  Isso não foi bem visto por muitos que começaram a cobrar um recorte racial como se tratasse de um filme de ficção ou um documentário. 

O fato é que contar o caso de uma vítima real e sua família de uma forma cronológica e detalhada gera empatia. O que não acontece nas matérias jornalísticas que a maioria de nós, que não vivemos a ditadura, ouvimos: número de mortos e desaparecidos, sem rosto, sem história. Esse distanciamento das histórias das vítimas, pode ter colaborado para surgimento de uma quantidade de jovens conservadores, que negam que houve sequer uma ditadura ou a celebram como se fosse a solução para um "Brasil dominado pela corrupção".

Não dá pra menosprezar o quão importante é falar dessa temática num momento em que tivemos uma tentativa de golpe tão recente. Acredito inclusive que estamos atrasados nessa tarefa. As vítimas devem ter voz, sejam elas do Leblon ou da favela. Num momento em que a narrativa é ditada por quantidade de seguidores e likes e a verdade já não importa mais, a história é reescrita. Os jovens são educados por plataformas que mentem sem pudor e os professores de história são desacreditados, a educação está em crise e a população vê os colégios militares como uma solução. E não é um só filme que vai mudar ou amenizar essa dura realidade. É necessário uma enxurrada de filmes, livros, músicas, museus relatando o ponto de vista das vítimas que de tão numerosas e variadas viabilizam o devido recorte de classe e raça tão cobrado. Então fica o convite, vamos produzir mais. É preciso lembrar pra não repetir.    

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Reflexão sobre a Arte

 Desde cedo a arte sempre me atraiu de forma natural e intensa. Mantendo um diário durante a infância, tinha o hábito de escrever todos os dias, hábito que me garantiu que a fluidez das palavras fosse como andar de bicicleta. O teatro, a dança, enfim, o palco me enfeitiçava. Mas sempre havia uma racionalização no fundo da minha mente: Isso não é trabalho, isso não dá dinheiro.

Cresci e matei a arte junto da infância. Parei de escrever (quando não era estritamente necessário) e passei a estudar como os jovens da minha idade para o vestibular. Escolhi uma profissão que eu conhecia pouco por um certo deslumbramento, sofri durante toda a graduação e escolhi o caminho mais “fácil” ao me deparar com o fim dela. Pois o caminho mais fácil não era tão mais fácil assim e me vi presa sem poder avançar nem retornar. Tentei o plano B, C e D todos dentro do que a sociedade reconhece como trabalho. A arte acenava para mim, eu ignorava. Sempre ignorei.

A essa altura no plano E, fracassando, a arte acena mais forte. Talvez seja hora de dar uma chance. Se dei 5 chances para o que a sociedade esperava de mim, não devo ter dado nem a segunda chance para minha paixão. Se foi a arte uma escolha pessoal, por que não consigo me desvencilhar dela? Eu a escolhi ou será que ela me escolheu?

sexta-feira, 8 de março de 2013

Ensino Fundamental sem História, Geografia e Ciências

Essa semana surgiu uma notícia que me deixou, no mínimo, desconcertada. O governo do estado de São Paulo vai retirar as disciplinas de história, geografia e ciências do ensino fundamental.
Pra quem não viu: http://revistaforum.com.br/spressosp/2013/02/governo-estadual-altera-curriculo-do-ensino-fundamental/.
Mas tudo bem, essas disciplinas nem são tão importantes assim, veja bem, pra que alguém vai querer aprender que o Brasil teve uma ditadura terrível a pouquíssimo tempo? Tá certo que muitos morreram, tem gente desaparecida até hoje, mas a polícia de hoje é muito bem preparada e bem intencionada e está aqui pra nos proteger não é?

Geografia também é uma matéria tão inútil né? Pra que alguém ia querer saber que o nióbio do país está sendo roubado e vendido no exterior a preço de banana? Aliás, o que é nióbio mesmo?
E as mudanças no corpo de um adolescente, a poluição da água e do ar, nossa saúde se deteriorando s cada dia mais... Esse são assuntos que não interessam às crianças. A única coisa que elas devem saber é que o carro dos pais e as sacolinhas do supermercado estão destruindo com o planeta...
Acorda Brasil!!!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Quem é o dono do mundo?

Quem é o dono do espaço de chão onde você mora? O banco?
Quem é o dono da água que você bebe? O Departamento de Água e Esgoto?
E as frutas que dão nas árvores? São do supermercado? Do produtor? Suas?
O mundo tem tudo o que é necessário para a sobrevivência humana e matéria prima para toda a tecnologia que desenvolvemos, mas tem um porém. É tudo pago.
O dinheiro possibilitou que um grupo de pessoas se apropriassem dos recursos do planeta e vendessem para aqueles que concentrassem determinada renda. A partir daí você passou a pagar pra morar, pagar pra comer, pra beber, pra dirigir seu carro de uma cidade para outra, e pagar pelo nada também, afinal você paga impostos. Você se tornou um escravo do dinheiro.
Quem não tem dinheiro está condenado a morrer de fome, mesmo existindo terra o suficiente para todos morarem, plantarem, e criarem animais (não, eu não faço parte do MST).
Mas o mais engraçado disso tudo é que estamos tão acostumados com essa realidade que quando avistamos um mendigo na rua pensamos: Vagabundo, não quer trabalhar, é nisso que dá. O que nos faz mais dignos que ele? Seguimos as regras, ok. Nos matamos de trabalhar pra pagar uma dívida que nem é nossa. Mas não somos diferentes dele, apenas demos a sorte de ter mais dinheiro.
Sorte, Michele? Mas eu trabalho o dia todo, ralo muito para colocar dinheiro em casa e sustentar a minha família. Verdade, leitor. Mas você teve a sorte de conseguir um nível de estudo, você teve a sorte de nascer em uma família onde não faltava comida em casa, para que você pudesse estudar e conseguir o mínimo de conhecimento. Conhecimento tal que te possibilitou hoje estar empregado e ganhar um punhado de papel todo mês que lhe garante a entrada para o maravilhoso mundo da Classe Média.
Os Donos do Mundo colocaram etiquetas em recursos naturais e as venderam. Hoje eles querem colocar etiquetas nas nossas idéias. Não se deixe vender.


domingo, 22 de abril de 2012

Salve o Mundo: Compre sacolas plásticas!!!

A moda da vez é a sustentabilidade. Todos preocupados com a natureza e criando "soluções" para diminuir a poluição e o desperdício, enfim, tudo muito lindo, em teoria.
Em meio a esse modismo, resolveram que as sacolinhas plásticas que pessoas como eu e você utilizam para carregar suas compras estão poluindo o mundo. Reduziram o problema da poluição no mundo a sacolinhas plásticas e mais do que depressa, pensaram numa forma de obterem lucro em cima disso e conseguiram!!!
Pessoas estão comprando sacolas plásticas que não são lá muito mais duráveis do que as antigas e ainda se sentindo felizes e com a consciência super tranquila. Sabe aquela sensação de dever cumprido? Pois é...
Agora chegando em casa com as compras na sua sacola que custou R$0,50 e não polui a natureza, coloque os produtos em cima da mesa e observe. Quanto plástico tem nas pequenas embalagens de yakult que compra pro seu filho? O tamanho das embalagens foi feito visando a sustentabilidade? Acho que não hein? E as sacolinhas de pão que antigamente eram de papel e agora são todas de plástico? Não poluem a natureza? As frutas, verduras e legumes estão cada vez mais embalados e as embalagens de bebidas, que antigamente eram todas de vidro retornável, agora são garrafas PET (algumas retornáveis, outras não).
A tentativa é criar um mundo sustentável de verdade? To dentro, mas as medidas devem ser adotadas em toda a economia e não afetarem apenas o bolso do consumidor. Um mundo sustentável é um mundo onde os produtos são feitos para durarem, onde as fábricas não despejem o seu lixo nos rios e mares, onde as pessoas não se escravizam para comprar coisas que elas não precisam por um preço exorbitante graças a uma marca e o status que ela proporciona, onde os carros andem por combustíveis que não poluam o ar, onde não existem queimadas, enfim... Um mundo sustentável é muito mais do que um mundo onde as sacolinhas são cobradas.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Qual é o preço da educação?


 A educação virou um negócio lucrativo como muitos outros para "escolas" particulares. Mas qual será mesmo o preço da educação?
Conhecimento pode sim, ser adquirido gratuitamente. Existem diversas bibliotecas, cursinhos pré-vestibulares gratuitos e com a internet então, nem se fala... Mas o engraçado é que conforme o conhecimento se torna cada vez mais acessível à população em geral, independente da posição social, a maioria dos alunos de faculdades públicas ainda são a porção mais "endinheirada" da sociedade. Então volto a questão: O conhecimento tem preço?
Muitas das pessoas de classe média baixa não sabem que existe um ensino superior gratuíto no país. Causa espanto, não é? Mas é a mais pura verdade. Já ouvi pessoas dizendo que não prestariam USP porque a mensalidade devia ser cara demais. O que me espanta é que pessoas que dizem isso tem sim acesso a internet, ou seja, tem acesso a conhecimento gratuíto e ainda assim, desconhecem oportunidades, isso é perigoso.
Um pouco de reflexão sobre o assunto me fez concluir que vivemos em uma sociedade de "castas" apesar de termos mobilidade social. Um filho de pessoas humildes não saberá que existem faculdades públicas no país e não se interessará pelo assunto até que alguem lhe desperte a curiosidade sobre o tema. Esse "alguém" muito provavelmente não serão seus pais, pois eles também não tem esse conhecimento. Então sobra a escola. Ahh, a escola pública... Renderia um livro falar da escola pública brasileira hoje em dia, mas eu vou me ater a dizer que ela não incentiva os seus alunos a mudar de posição social de maneira alguma, seja pelo vestibular de faculdade públicas, seja por cursos técnicos gratuítos, ou qualquer outra forma. Então um filho de pais pobres entra na escola pública, sai sem saber ler e escrever (vide: progressão continuada), sem aprender profissão alguma e sem saber onde buscar conhecimento gratuíto (ou barato).
Nosso herói pobre fictício não ficou sabendo de uma oportunidade de crescer na vida pela família nem pela escola, resta a principal fonte de "conhecimento" para a classe média baixa: a televisão. Assistindo a "telinha" somos bombardeados de propagandas. Seja de produtos, empresas, serviços e pessoas, ou seja, aquilo que não precisa de propaganda é pouco mencionado na TV. Então eu pergunto: que propaganda faculdades públicas necessitam? Alguem aí já viu um outdoor de algum curso gratuíto da USP ou da UNESP?
Aí algum político "bonzinho" investe em faculdades empresas particulares para dar bolsa para os indivíduos de classe média baixa e consegue votos na próxima eleição deixando, por consequência, de investir no aumento de vagas ou na melhoria da qualidade das faculdade públicas.
Qual é o preço da educação? É R$0,00 que se transforma em lucro nos cursinhos e faculdades particulares graças à falta de conhecimento do povo.