Atenção, esse texto contém spoilers do filme.
O filme "Ainda estou aqui" começa retratando o dia a dia da família Paiva. Uma família numerosa composta de pai (Rubens Paiva), mãe (Eunice Paiva) e 5 filhos que foi afetada pela prisão e morte do pai pela ditadura militar. Logo no início já se percebe que se trata de uma família de posses, as pistas? Uma mãe de cinco filhos nadando tranquilamente no mar, uma das crianças anda o que parece ser um quarteirão para chegar da praia a casa, a presença de uma empregada doméstica e uma filha que passa uma temporada no exterior. Isso não foi bem visto por muitos que começaram a cobrar um recorte racial como se tratasse de um filme de ficção ou um documentário.
O fato é que contar o caso de uma vítima real e sua família de uma forma cronológica e detalhada gera empatia. O que não acontece nas matérias jornalísticas que a maioria de nós, que não vivemos a ditadura, ouvimos: número de mortos e desaparecidos, sem rosto, sem história. Esse distanciamento das histórias das vítimas, pode ter colaborado para surgimento de uma quantidade de jovens conservadores, que negam que houve sequer uma ditadura ou a celebram como se fosse a solução para um "Brasil dominado pela corrupção".
Não dá pra menosprezar o quão importante é falar dessa temática num momento em que tivemos uma tentativa de golpe tão recente. Acredito inclusive que estamos atrasados nessa tarefa. As vítimas devem ter voz, sejam elas do Leblon ou da favela. Num momento em que a narrativa é ditada por quantidade de seguidores e likes e a verdade já não importa mais, a história é reescrita. Os jovens são educados por plataformas que mentem sem pudor e os professores de história são desacreditados, a educação está em crise e a população vê os colégios militares como uma solução. E não é um só filme que vai mudar ou amenizar essa dura realidade. É necessário uma enxurrada de filmes, livros, músicas, museus relatando o ponto de vista das vítimas que de tão numerosas e variadas viabilizam o devido recorte de classe e raça tão cobrado. Então fica o convite, vamos produzir mais. É preciso lembrar pra não repetir.